United States Holocaust Memorial Museum The Power of Truth: 20 Years
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Enciclopédia do Holocausto

 

 

 

Testemunho

Leah Hammerstein Silverstein
1924, Praga, Polônia

Descreve o que acontecia com os corpos das pessoas que morriam no gueto de Varsóvia. [Vídeos de Entrevistas: 1996]

Transcrição:

Naquela época, você ainda podia ter um enterro caso pudesse pagar para o conselho judaico, o Judenrat*, cerca de 15 zlotych [moeda polonêsa]. Eles traziam um carro funerário e levavam o corpo. Mas nós [a população em geral] não tínhamos dinheiro e, então, as pessoas pobres colocavam o cadáver para fora, na frente de onde viviam, e então vinham carroças especiais para levar todos aqueles corpos até o cemitério da rua Gesia. Então, no dia seguinte eu corri para aquele cemitério esperando encontrar meu pai, e o que eu vi foi um pesadelo terrível. Pela primeira vez na vida vi uma pilha de cadáveres, uns sobre os outros. A pilha tinha a altura de uma casa de dois andares porque a quantidade de mortos era tão grande, e também não parava de aumentar a cada dia, que os coveiros não conseguiam acompanhar o ritmo da quantidade de cadáveres que eram despejados naquele cemitério. Então eles recolhiam os corpos e os empilhavam, um em cima do outro. Eu era muito jovem, e vi todos aqueles corpos, com pernas e braços se entrelaçando, com as bocas abertas, e senti o cheiro ruim daquela pilha de corpos em decomposição, foi terrível. Era um cheiro adocicado, sabe. Eu, eu não encontro palavras pra descrever aquilo, mas era o inferno, embora a palavra inferno não seja suficiente para descrever o que vi. Então, eu não consegui achar o corpo do meu pai no meio daquela pilha, simplesmente não consegui, e voltei para o kibutz**. (*) Judenrat = Os nazistas escolhiam alguns judeus para serem "líderes" locais, e eles serviam como intermediários entre os alemães e os judeus confinados, sendo responsáveis por implementar o que os alemães ordenassem e pelo que os demais judeus fizessem. (**) Kibutz = Grupo comunitário. No caso descrito, significava o local e as pessoas com quem ela viviam.

Naquela época, você ainda podia ter um enterro caso pudesse pagar para o conselho judaico, o Judenrat*, cerca de 15 zlotych [moeda polonêsa]. Eles traziam um carro funerário e levavam o corpo. Mas nós [a população em geral] não tínhamos dinheiro e, então, as pessoas pobres colocavam o cadáver para fora, na frente de onde viviam, e então vinham carroças especiais para levar todos aqueles corpos até o cemitério da rua Gesia. Então, no dia seguinte eu corri para aquele cemitério esperando encontrar meu pai, e o que eu vi foi um pesadelo terrível. Pela primeira vez na vida vi uma pilha de cadáveres, uns sobre os outros. A pilha tinha a altura de uma casa de dois andares porque a quantidade de mortos era tão grande, e também não parava de aumentar a cada dia, que os coveiros não conseguiam acompanhar o ritmo da quantidade de cadáveres que eram despejados naquele cemitério. Então eles recolhiam os corpos e os empilhavam, um em cima do outro. Eu era muito jovem, e vi todos aqueles corpos, com pernas e braços se entrelaçando, com as bocas abertas, e senti o cheiro ruim daquela pilha de corpos em decomposição, foi terrível. Era um cheiro adocicado, sabe. Eu, eu não encontro palavras pra descrever aquilo, mas era o inferno, embora a palavra inferno não seja suficiente para descrever o que vi. Então, eu não consegui achar o corpo do meu pai no meio daquela pilha, simplesmente não consegui, e voltei para o kibutz**. (*) Judenrat = Os nazistas escolhiam alguns judeus para serem "líderes" locais, e eles serviam como intermediários entre os alemães e os judeus confinados, sendo responsáveis por implementar o que os alemães ordenassem e pelo que os demais judeus fizessem. (**) Kibutz = Grupo comunitário. No caso descrito, significava o local e as pessoas com quem ela viviam.

Leah foi criada em Praga, um subúrbio da cidade de Varsóvia, na Polônia. Ela era ativista do movimento da juventude sionista Ha-Shomer ha-Tsa'ir. Em setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia e obrigou os judeus a viverem confinados no gueto de Varsóvia, o qual foi murado pelos alemães em novembro de 1940. No gueto, Leah vivia com um grupo de membros do Ha-Shomer ha-Tsa'ir. Em setembro de 1941, ela e outros membros daquele grupo de jovens conseguiram fugir para uma fazenda do Movimento em Zarki, perto de Czestochowa, na Polônia. Em maio de 1942, Leah tornou-se mensageira da resistência [contra os nazistas] e, utilizando documentos poloneses falsos, viajava entre o gueto de Cracóvia e o campo de Plaszow. Como as condições se agravaram, ela teve que fugir para Tarnow mas logo decidiu retornar para a Cracóvia. Leah também fingiu ser uma polonesa não-judia em Czestochowa e em Varsóvia, e foi mensageira do Comitê Nacional Judaico e da Organização Judaica Combatente (ZOB). Ela lutou em uma unidade judaica no Armia Ludowa (Exército do Povo [Polonês]) durante a revolta polonesa de Varsóvia em 1944. Leah foi libertada pelas forças soviéticas. Após a Guerra, ela ajudou inúmeras pessoas a emigrarem da Polônia, e posteriormente mudou-se para Israel antes de finalmente se estabelecer nos Estados Unidos.

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